6 de junho de 2010

O meu discurso de formatura...

Segue na íntegra, meu discurso de oradora da nossa formatura...
Eu achei extremamente engraçado, mas há quem diga que foi emocionante...
Gosto é como todo mundo já sabe, né?

Há, mais ou menos, 5 anos atrás – 3 e meio para a Susan, alguns de nós, depois de alguns “testes vocacionais”, resolveram prestar o vestibular para o curso de Psicologia da FAL. Digo alguns porque eu mesma não prestei vestibular nenhum. Simplesmente tropecei lá em frente ao prédio e entrei pra lavar a mão,
limpar os joelhos que sujaram com a queda e beber um pouco de água pra me acalmar do susto e resolveram me matricular. Os demais lutaram muito para conseguir a tão sonhada chance de prestar o curso de Psicologia. Afinal de contas eram somente 60 vagas para 15 alunos (!), foi uma batalha suada, mas valeu a pena.
Depois de tanta luta, enfim a vitória: rumamos então para nossa 1ª aula, na sala 54, após uma troca inesperada e emergencial de professores. Professor Sebastião, nosso saudoso Seba, nos inseriu no mundo da genética humana com alguns assuntos como “a hereditariedade do inconsciente”, dentre outros. E foi ele quem nos fez a pergunta a qual fomos submetidos durante todo aquele ano de 2005: “Por que você escolheu fazer Psicologia?”. E o pior é que, mesmo que tivéssemos tentado responder aquela pergunta com poucas ou muitas palavras, ainda hoje não nos vemos capazes de responder com certeza e precisão os motivos que nos levaram a fazer esta escolha. Apesar de termos recebido como trote o professor e a aula, fomos obrigados à, amarrados, pedir dinheiro na rua, sendo que alguns de nós quase foram assassinados e mutilados. Lembro-me como se fosse hoje do puxão que dei no braço da Priscila, no intuito de salvar a minha pobre vida, quase arranquei a mão da coitada. Além de nossa sala trote, a sala 49, hoje sala do nosso grande Marcos, a qual fomos obrigados a estudar num ambiente onde apenas 65% do espaço era realmente utilizável e existia apenas um ventilador muito fraco. Mais um ponto interessante é que esta sala se localizava estrategicamente em frente ao banheiro feminino, dessa forma, de porta fechada não sobreviveríamos ao calor, mas de porta aberta, os professores não conseguiam dar aula, pois sempre havia alguém dando um “oi” ou um aceninho lá da porta do banheiro.
O curso então começou. Nunca se quer imaginamos que seríamos capazes de ler tanto e de carregar tantas apostilas xerocadas, encadernadas, complexas, incompreensíveis e até assustadoras. As aulas práticas de Anatomia eram as mais aguardadas... Tínhamos então a oportunidade semanal de ter contato com os cursos de Fisioterapia e Educação Física. Nada de muito relevante. Nosso interesse era apenas na Anatomia... dos graduandos...
Então conhecemos as provas e descobrimos que, ao contrário do que se pensa, muitas vezes, as provas com consulta, podem ser bem piores do que as sem consulta. E os trabalhos então... Foi triste descobrir que não se podia mais colorir as capas e enfeitá-las, né, Suelen?
Quantas e quantas noites sem dormir direito ou sem dormir mesmo. Estudando, tomando café, Coca-Cola, pó de guaraná... Daí chegávamos na sala e dormíamos a aula inteira... Sem a intenção de apontar ou relacionar ninguém a esse fato, é verdade que eu, a Elaine e a Suelen poderíamos fazer um grupo de estudos a cerca do assunto: “Sono e Faculdade – Uma relação dialética”.
A tecnologia e seus avanços também marcaram nossa passagem pelo curso e nos serviram muitas vezes como álibis. Visto que o atraso na entrega de um trabalho poderia ser justificado com uma impressora problemática ou sem tinta, ou ainda, com os pré-históricos disquetes que insistiam em ser formatados ou adoeciam por causa de um vírus oportunista. Hoje temos os pendrives, mas que também podem ser contaminados, infelizmente não se necessita formatar o pendrive para reaver os documentos, agora fica mais difícil usar a tecnologia a nosso favor nesses casos...
Os seminários revelavam e ainda revelam distúrbios psiquiátricos, neurológicos e até psicológicos de boa parte dos alunos dessa sala. Sintomas característicos de ataques de pânico e agorafobia eram comuns. No entanto, hoje evoluímos para sintomas maníacos, acompanhados de risos nervosos e incontroláveis.
Vale lembrar que houve um tempo, há mais ou menos 2 anos e meio, em que descobrimos que a água do bebedouro do 2º andar potencializava a fertilidade das acadêmicas do Unisalesiano. Como prova, tivemos primeiro o Giovani, em seguida o Gabriel e por fim o Bernardo. Um a cada mês. Mas apesar de o número de indivíduos do sexo masculino ter aumentado na nossa turma, somente o Gabriel foi capaz de manter-se no curso, rapaz de fibra esse...
E chegaram os Estágios de Núcleo Básico... Muita festa, muitas horas extras realizadas e inventadas – Ops! Não vale falar de que não está mais entre nós... –, muitos relatórios e histórias para contar. Ufa! O que é o homem? Boa pergunta. Tentamos responder achando que isso nos deixaria mais preparados para
enfrentarmos a fase mais temida do curso: O Plantão. Apesar que o desespero de enfrentar o Plantão perdeu feio para o medo de ter que passar as tardes ouvindo, obrigados, Edit Piaff com a Valéria.
Saltos, batons, “roupas de domingo” e olheiras horrorosas. Resultado da noite mal dormida por conta da ansiedade que não nos permitiu dormir e descansar antes da fatídica terça-feira. E como se não bastasse, tio Aguinaldo resolve ter problemas com o carro justamente naquele dia: 11 de março de 2008. A tia Lisa até que tentou nos acalmar, mas sem muito sucesso. Infelizmente nosso arquétipo de pai nos deixou com uma gestalt aberta...
Mas apesar disso, nos saímos muito bem. Muitos “hum, hum’s” ou “você quer falar mais sobre isso?” o u ainda “então você está me dizendo que está ansioso?” foram utilizados naquela terça, mas Rogers nos auxilia até hoje...
E apesar de nossa vaidade nos inquietar, descobrimos que não é nada bom dizermos que cursamos Psicologia. Parentes e amigos solicitam consultas gratuitas, querem avaliações de seus filhos. Desconhecidos nos apresentam toda a sua vida. Potenciais parceiros temem ter suas mentes destrinchadas por nosso “poder de ler pensamentos”. Não temos mais o direito de perder a paciência e de nos descontrolarmos, pois logo alguém diz: “Mas como uma pessoa nervosa assim faz Psicologia?”.
E aos poucos abandonamos velhas atitudes, como, principalmente, a forma de nos vestir. Eu deixei minhas “maria-chiquinhas”, papete com meia e toucas coloridas, mochila remendada com fita isolante e os milhares de chaveiros. Só o All Star que não dá pra abandonar, desculpa, gente... A Laine deixou a moda “Amélia com pressa” e adotou os sapatos envernizados e botas de camurça. Nossa camaleoa, Fran, a cada novo semestre um novo corte de cabelo. A Fernanda deixou a moda “patricinha rosa chok” e transformou-se em Kate Lúcia, com um vocabulário bem mais elaborado do que a personagem da TV. Mas a mudança mais radical foi de nossa pequena companheira Suelen. De Christiane F., fusionada a Pitty com um toque de rapper, transformou-se na mulher dos mil e um scarpins de salto agulha. Quem nos viu, quem nos vê. No entanto, apesar dos imensos esforços para melhorarmos, ainda assim sofremos críticas duríssimas por qualquer deslize. Marcos não perdoa nenhum descuido sequer. Nossa Glória Kalil de cueca é cruel, frio e adorável em seus comentários maldosos e dicas fashions. Depois de Nazaré, Flora e Yvone, nem ele nem nós nunca mais fomos os mesmos. A doce crueldade se tornou parte de todos nós.
E quantas vezes o tio Rogério teve de sair da sala, nos arrebanhar e recordar que a aula começava às 14h? Ou então que o intervalo era de míseros 20min? Ainda não entendo sua atitude, já que nosso intervalo recebia apenas uma prorrogação de mais 20min, já que o tempo real não condizia com o tempo ideal, visto que a turma é composta por 86% de indivíduos do sexo feminino, o que explica a prorrogação: temos muito assunto a debater e 20min são insuficientes para tal atividade.
Ah, as nossas festas na clínica... Pique-niques planejados e improvisados na quadra e no tablado. Bebedeiras regadas a muita Coca-Cola no Barranco’s, churrascos, congressos, simpósios, palestras, momentos de ócio e preguiça, apesar destes serem quase extintos. Sempre algo surpreendente acontecia nessas reuniões: segredos revelados, fofocas disseminadas, recordações de momentos bons e ruins...
As últimas supervisões da tia Ana, ou tia Lisa para os sobrinhos mais chegados, foram as mais divertidas. Talvez por serem  nelas onde conseguimos reunir a maioria da nossa enorme turma. Quase sempre incitada pela figura de nosso querido Marcos, a crise maníaca coletiva da turma, já teve até dancinha indiana, com a participação especial de nossa amiga de idade avançada, Aline. Além de sempre nos recordarmos de nossa companheira que participou de um famoso seriado americano, foi parar na ilha de Lost e nunca mais voltou.
Apesar das grandes alegrias que vivenciamos, tivemos perdas bastante significativas quanto a nossa turma. Colegas como Denise, Victor, Rafael, Jaqueline, Adriana, Patrícia, Graziela e, mais recentemente, a Graziele, “o ser” e a Priscila, a “Pri-Pipoca”.Além dos professores que se foram por um motivo ou outro.
E os sacrifícios para não parar... Deixar de comer muitas vezes para comprar uma apostila ou pagar o ônibus. Não conseguir nenhum descontozinho se quer para pagar a mensalidade. Tomar chuva para não perder aula, ou pior, prova e atendimento. Quantas vezes tivemos que ouvir nossos pacientes, auxiliá-los em
seus problemas e estar passando pelas mesmas coisas ou até coisas piores. Quantas vezes entramos em crise por não sabermos como proceder com nosso paciente e no atendimento seguinte ele nos dizia que havia feito tudo como tínhamos sugerido, sendo que não havíamos dito uma palavra se quer. Quantas vezes nos vimos chorando, tristes e não sabíamos o motivo. Tantas vezes nos fizemos chorar, nos magoamos com palavras ditas sem pensar ou não e nos arrependemos e reparamos o erro ou pioramos tudo...
Quanta surpresa com algumas notas e quanta expectativa para entregar e apresentar alguns trabalhos como a pesquisa interdisciplinar do Mário, do Hugo e do Luis Carlos, o trabalho de conclusão do estágio de Organizacional da Danielle e o famigerado TCC. Que alívio...
Mas apesar dos pesares, chegamos aqui. Estamos aqui hoje. Não somos mais estudantes, hoje somos psicólogos. Tá certo que alguns ainda desempregados, mas somos psicólogos. E a partir de agora é que traçaremos os caminhos a nosso modo, mesmo que com a sensação de uma nudez intelectual, teremos que sair em busca da realização daquilo tudo o que planejamos até aqui, já que, a partir de hoje, nossas vidas serão dedicadas quase que integralmente ao exercício da Psicologia, essa profissão que escolhemos, de uma forma ou de outra e que nos faz tão bem exercer.
É bobagem acreditar que manteremos nossos laços de amizade, principalmente depois de hoje, oficialmente o último dia de celebração desse grande momento, já que o tempo nos afastará natural e gradualmente, assim como nos uniu. Mas todas as vezes que abrirmos nosso singelo álbum de formatura, seja para mostrá-lo a um parente, seja para recordar as vivências desses 5 anos – 3 e meio para a Susan – reviveremos todas as sensações despertadas hoje. Sorrisos discretos surgirão, os olhos ficarão marejados, um suspiro nos lançará de volta e poderemos apontar os rostos nas fotografias: essa era a grossa, essa a feliz, aquela ali era “Cida”, esse era o aprendiz da Flora, essa era a mãezona, essa outra a mal-humorada, aquela era a estressada... E depois de enxugar aquela lágrima que insistiu tanto e rolou no nosso rosto, vamos ter certeza de que muito do que nos tornamos hoje, se deve a convivência com pessoas tão especialmente diferentes umas das outras. A turma mais nova de todo o curso, também se mostrou, muitas vezes, a mais imatura, vai sofrer a partir de hoje como gente grande. A partir de hoje, estamos perdemos irmãos que escolhemos, irmãos de coração. Tenho certeza que a saudade já começou a apertar e ainda vai doer. Com o tempo a dor vai amenizar, mas o sentimento não deixará de existir.
Como tudo, hoje a graduação é que chega ao fim, mas nossas vidas foram e serão influenciadas pelas experiências, vivências epessoas com as quais tivemos contato durante esses 5 anos – 3 e meio para a Susan.
 

2 comentários:

  1. O melhor de ter sido apenas 3 anos e meio é que eu sou lembrada do começo ao fim!!!!

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  2. Thalita, a cor de fundo da postagem impede de ler. Mude a cor do fundo ou a cor das letras.
    Bjs
    Adriene

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